Espiritualidade › 07/06/2018

São Francisco e o corpo do Senhor: reverência ao Cristo presente entre nós

Em seu Testamento Francisco demonstrou grande fé no sacerdócio e na Eucaristia. Mas sua concepção de comunhão com o Cristo eucarístico vai muito além de um encontro da alma esponsal com Deus; antes, paira sobre a compreensão de uma comunhão com o mistério de participação na Paixão do Senhor, que acontece no momento da celebração. Deste modo, Cristo se faz presente na terra por meio deste mistério, ou seja, muito longe de simples recordação devota, o poverello contempla o Corpo do Senhor como o agente transformador da vida pessoal e social do povo. Em relação à Eucaristia traduziu a sua fé de modo eloquente e verdadeiramente católico. “No que o Serafim de Assis, porém, se singularizou foi na atitude coerente com a fé e no aprofundamento das verdades eucarísticas, aprofundamento este que se tornou nascedouro de uma concepção teológica própria especial deste mistério” (KOSER, 1960, p. 149).

“Aos seus irmãos e irmãs das três ordens prescrevia rigorosamente comungassem diversas vezes durante o ano, não se satisfazendo com o mínimo de comunhões, que ia diminuindo sempre mais na época em que vivia, a tal ponto que a Igreja se viu obrigada a marcar como lei explícita a comunhão Pascoal (KOSER, 1960, p. 151). Nos tempos de Francisco a Eucaristia era algo semelhante a uma espécie de controle dos fiéis. A prática da comunhão diária não era usual, mesmo porque os cristãos mal acreditavam na sua própria dignidade diante do mistério. Desde o século V a presença na Missa era cada vez mais dissociada da vida do povo e os próprios preceitos da Igreja, numerosos e onerosos, não encorajavam muito essa prática diária. Sabe-se que em diversos lugares da Europa Medieval bastava adentrar nas igrejas e olhar para a Hóstia no ato da consagração que algo como que “miraculoso” já era oferecido ao fiel. Fator inovador ocorreu no IV Concílio de Latrão (1215), que passou a exigir a confissão anual e participação nas Missas ao menos uma vez ao ano como critério para alcançar a salvação como algo forçoso aos fiéis para irem às igrejas e comungarem. No entanto, se prezava isto mais com um teor de vigilância contra heresias do que devoção espiritual. A isto some-se o fato de que o a casuística penitencial, muito desenvolvida na época, fazia com que os fiéis encontrassem imensa dificuldade para se reconciliar, o que acabava por afastar o crente da Eucaristia.

Por sua vez, o desejo do santo era ver a fraternidade reunida ao redor do altar e, persuadido do valor da celebração eucarística, chegava até mesmo a pedir que “o irmão sacerdote não se deve contentar com não pecar; [mas, para ele, o Corpo do Senhor é tão precioso que] a pureza de mente e de coração, tão inculcada em seus escritos, exige um desapego completo de tudo que impede a adesão total ao Cristo” (IRIARTE, 1976, p. 42). Sendo comum aos teólogos da época de São Francisco a atribuição da ação de Deus no mundo como realização da ação do Espírito Santo (cf. FLOOD, 1986, p. 160), os frades viam o mundo a partir do movimento realizado pelo Espírito e seu santo modo de operar, chegando isto a tal ponto que os mesmos passaram a denominar este “movimento divino” de “espírito do Senhor e seu santo modo de operar”, o que favorecia-lhes a percepção de que a proximidade com o sacramento era algo mais que necessário. Não raras são as passagens, a este respeito, onde a foi a partir do espírito do Senhor que muitos eventos aconteceram dentro da Ordem. Sobre isto, assim afirma Frei Constantino: “Os véus do Mistério Eucarístico não são uma barreira para os olhos penetrantes da fé e do amor do Serafim de Assis: como vê espiritualmente o sacramento, vê da mesma forma realmente o Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, vê o Rei, a quem jurou fidelidade” (KOSER, 1960, p. 150).

Sobre a compreensão acerca da necessidade deste mistério para a santificação do fiel, em sua primeira Admoestação encontramos uma verdadeira “teoria do conhecimento” em torno desta percepção. Aqui, tendo em vista os irmãos mais “simples” que aderiam à fraternidade nascente,

Francisco atribui à ação divina a sabedoria para compreender o mistério sagrado e a necessidade da Eucaristia:

“Deste modo afirmou: O Pai habita a luz inacessível, e Deus é espírito, e a Deus nunca ninguém viu. Por isso não pode ser visto senão em espírito, porque é o espírito que vivifica; a carne não adianta nada. Mas nem o Filho, no que é igual ao Pai, é visto por al­guém diferentemente do Pai, diferen­temente do Espírito Santo. Por isso todos os que viram o Senhor Je­sus segundo a humanidade e não viram e creram segundo o espírito e a di­vindade que ele era o verdadeiro Filho de Deus, foram condenados; assim também agora todos os que vêm o sacramento que se consagra pelas palavras do Senhor sobre o altar por mão do sacerdote na forma de pão e vinho, e não veem e creem segundo o espírito e a di­vindade, que é verdadeira­mente o santíssimo corpo e sangue de nos­so Senhor Jesus Cristo, foram condenados, pelo testemunho do próprio Altíssimo, que diz: Este é meu corpo e meu sangue do Novo Testamento [que será derramado por muitos] e: Quem co­me a minha carne e bebe o meu san­gue, tem a vida eterna. Por isso o espírito do Senhor, que mora em seus fiéis, é quem recebe o san­tíssimo corpo e sangue do Senhor”.

Sobre o afastamento do Sacramento, podemos dizer que a preocupação com a salvação era comum também a todo homem medieval. Os frades não eram alheios a isto e, de modo especial, temos no pobre de Assis uma atenção e preocupação com isto. Prova concreta deste cuidado para com o povo são as cartas escritas por ele, sempre com teor de exortações. Viver sobre o espírito do mundo, atento às próprias preocupações já era uma condenação iniciada aqui mesmo. Enquanto aguarda a manifestação definitiva de Cristo em sua segunda vinda, Francisco entrega-se aos valores espirituais oferecidos pela Igreja, sendo a Eucaristia o mais importante, a vê como prefiguração do Céu aqui na Terra; sobre isto lê-se: a “Eucaristia, além de meio de salvação e santidade, é ainda uma antecipação da própria consumação, é a própria finalidade, o mesmo Céu” (KOSER, 1960, p. 153). Algo tão importante que o levava a ponto de honrar os sacerdotes, responsáveis por trazerem o Corpo e o Sangue do Senhor na Terra, como ressalta um de seus biógrafos: “Queria que se tivesse a maior reverência para com as mãos sacerdotais, pelo poder divino que lhes foi conferido para a confecção do Santo Sacramento. Dizia frequentemente: ‘Se acontecesse de encontrar ao mesmo tempo um santo vindo do céu e um sacerdote pobrezinho, prestaria honra primeiro ao presbítero, e me apressaria a beijar as suas mãos’” (II Celano, 201).

Toda esta reverência despertava-lhe o zelo pelo Corpo do Senhor e, sempre que adentrava nas capelas, mesmo aquelas mais isoladas, se contivessem a reserva Eucarística dizia: “Nós te adoramos, Senhor Jesus Cristo, também em todas as tuas igrejas, que estão em todo o mundo, e te bendizemos, porque por tua santa Cruz remiste o mundo” (Admoestação, 5). Também “em todas as igrejas, onde quer que encontrasse a Eucaristia, o jogral cavaleiroso de Cristo se punha a adorar e a cantar com coração inflamado os louvores e as glórias, as magnificências, a humildade e a cortesia de seu rei e senhor” (KOSER, 1960, p. 156); “queria que fossem bons e preciosos os vasos que serviam na Missa, queria fossem igualmente preciosos os vasos em que se conservava a Sagrada reserva. Chorava amargamente o desleixo dos cristãos, e muito mais de tantos sacerdotes para com o adorável Sacramento” (KOSER, 1960, p. 155).

Os frades, com isto, acabaram por herdar do patriarca este valor, como prática importante e regular. “Certa ocasião quis mandar os frades pelo mundo com preciosas âmbulas para guardarem o preço de nossa redenção no melhor lugar, onde quer que o encontrassem guardado de maneira menos digna” (II Celano 201). Haja vista que Francisco falava da Eucaristia com frequência e de modo simples, por exemplo “na Carta a todos os clérigos, Francisco diz que a

Eucaristia merece atenção e que se apresenta sempre em total pobreza” (FLOOD, 1986, p. 167), hoje temos a tristeza de não termos referências quanto às fontes de sua devoção ao Corpo do Senhor, tampouco termos recebido as orientações por parte do pai seráfico quanto ao modo como os frades devem tornar este mistério como parte de sua vida. No entanto, o modo de ser do santo o demonstra com tenacidade: o frade deve ter por meta transformar a Eucaristia recebida em ação junto ao mundo em que se insere. Deste modo, o Corpo do Senhor deve nos conduzir ao próximo, também ele “corpo do Senhor”, marginalizado e desconsiderado.

São Boaventura recorda que “ardia pelo Sacramento do Corpo do Senhor com um fervor de todas as medulas, admirando com o maior espanto aquela caríssima dignação e digníssima caridade. Comungava muitas vezes, e tão devotamente que tornava os outros devotos, e ao saborear o Cordeiro imaculado suavemente, como se estivesse ébrio no espírito, na mente era quase sempre arrebatado em êxtase” (Legenda Maior, IX, 2). Também Celano fez questão de mencionar que o santo “achava que era um desprezo muito grande não assistir pelo menos a uma missa cada dia, se pudesse. Comungava com frequência e com tamanha devoção que tornava devotos também os outros” (II Cel 201, 2). A tal ponto que “na comunhão via alimento por Excelência de toda santidade. Sem comunhão, nenhuma santidade é possível. Com a comunhão, nenhum mal que não possa ser alcançada” (KOSER, 1960, p. 151).

Incansavelmente pedia aos frades que venerassem o Corpo do Senhor, chegando a suplicar por tal gesto dos irmãos: “rogo a todos vós, irmãos, com o beijo dos pés e com a caridade que posso, que manifesteis toda reverência e toda honra, tanto quanto puderdes, ao santíssimo corpo e sangue do Senhor nosso Jesus Cristo. Em quem as coisas que estão no céu e as que há na terra foram pacificadas e reconciliadas com o Deus onipotente. Rogo também no Senhor a todos os meus irmãos sacerdotes, os que são e serão e desejam ser sacerdotes do Altíssimo, que todas as vezes que quiserem celebrar a missa, puros com pureza façam com reverência o verdadeiro sacrifício do santíssimo corpo e sangue do Senhor nosso Jesus Cristo, com intenção santa e limpa, não por alguma coisa terrena nem por temor ou amor de alguma pessoa, como para agradar aos homens; mas que toda a vontade, quanto ajuda a graça, seja dirigida a Deus, desejando agradar só ao próprio sumo Senhor, porque ali é Ele sozinho que age, como lhe agrada; porque, como Ele mesmo diz: Fazei isto em minha comemoração” (Carta a toda a Ordem).

O amor intenso de Francisco pelo Senhor invadiu os corações de muitos franciscanos de modo que toda a Ordem pôde ser considerada “seráfica”, inflamada de amor pelo Senhor. Frades como São Boaventura e Duns Escoto expressaram sua veneração a Cristo pela teologia desenvolvida; outros ainda, como o fizera São Pascoal Bailão e menos São Bernardino de Sena manifestaram ao mundo o amor a Cristo por meio de seu testemunho de santidade e sabedoria espiritual louvando o Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo e seu Santíssimo Nome; sem mencionar a matriarca da Ordem, Clara de Assis, que em sua legião de irmãs, dentro dos claustros, consagram-se inteiramente a este louvor. De modo que o aniquilamento de Cristo no Calvário, gerador de vida e salvação para todos que dele participam, passou a ser visto pelo franciscanismo como um dos elementos fundamentais da própria aniquilação espiritual a que os irmãos se submetem. Em sua alma cavalheirosa “o impressionou de modo especialíssimo foi o amor e a humildade de Cristo, de se pôr desta forma à disposição dos homens” (KOSER, 1960, p. 151).

Tudo isto nada mais é do que imenso contribuinte para o aumento do imenso amor de Francisco pelo Jesus Eucarístico. Em sua concepção, “a vida cristã culmina com o tornar-se uma só coisa com o Deus-Homem, Jesus Cristo, no ‘Sacramento do Corpo de Cristo’, que se faz presente sob as espécies do pão e do vinho na celebração do sacrifício eucarístico” (ESSER, 1976, p. 23). A

visão medieval de Cristo, deixando praticamente de lado o ideário de Cristo mediador, provindo da Carta aos Hebreus e da Igreja Antiga, para aderir à ideia de Senhor assentado em seu trono, Pantocrátor, acabou por conturbar o rosto de Jesus na mente dos fiéis; algo imensamente favorecido pela hierarquia política na qual a Igreja se espelhava. Por outro lado, enquanto são Bernardo incentivava por meio de seus sermões uma concepção de Cristo mais humano e unido às dores pelas quais os homens passam, dentro dos claustros (pregações que até onde se sabe permaneceram marcantes somente dentro dos mosteiros), coube a São Francisco levar essa afabilidade e humanidade de Cristo em sua itinerância para todos os cantos da Europa. Comprova isto o fato de que “todas as cartas [dirigidas à diversos estados de vida da época] que de lhe restaram se referem a este tema, e com ternura e insistência delicada e cortês aconselha que se ame, louve, adore, receba dignamente a Cristo na Eucaristia” (KOSER, 1960, p. 156).

Por isso podemos concluir que Francisco leva consigo duas heranças: o Cristo Senhor e o Cristo-homem, com seus mistérios. A novidade de Francisco não foi outra além de levar adiante uma concepção mais prática acerca de Cristo, vivendo e colocando aos demais a possibilidade de viver de acordo com aquilo que aprendeu a partir das Sagradas Escrituras sobre a Pessoa de Jesus Cristo. Tanto que assim afirmou: “Ainda que o vejamos em diversos lugares, ele permanece indivisível e inteiro: sempre um em toda parte, opera como lhe apraz com o Senhor Deus Pai e o Espírito Santo por séculos dos séculos…” (Carta à toda Ordem, 33).

Frei Everton Leandro Piotto, OFM

Fonte: http://www.ofmscj.com.br/?p=9462

 

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