Artigos › 05/04/2018

Reflexões sobre a Dimensão Política do Franciscanismo

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO – 5

São Francisco de Assis e a Teologia da Libertação

Gostaria também de responder a uma colocação feita para mim numa assessoria que estava prestando, uma abordagem feita na pausa, com pergunta pertinente e capiciosa ao mesmo tempo: “Vocês, frades são todos TL, mas não percebem que o fundador de vocês era menos radical, ele era romântico, vivia entre pássaros e flores, banhava-se nas cachoeiras, amansava lobo, poupava lesmas pelos caminhos”.  Sim, meu fundador, Francisco de Assis, o santo do Irmão Sol e Irmã Lua, tem uma dimensão celebrativa da existência. E não há apenas romantismo nisto. Ele pode estar na beleza do natural porque afinou seu sensível olhar através do real.

Para Francisco de Assis existe vida celebrada, fé celebrada, realidade celebrada. Existe um texto que preciso retomar aqui: “Se é verdade, como disse um romancista em tempos sombrios de repressão nazista, de que pode haver situações em que falar de rosas parece constituir um crime, porque implica silenciar sobre tantos erros, é também verdade que para os cristãos, junto com o esforço de transformar a vida, há também um lugar para a celebração”. Realidades da fome, do empobrecimento, da exploração, dos atentados, das intervenções, da morte precoce de tanta gente, de tudo o que o mundo e o nosso país hoje enfrentam, não pode deixar ninguém indiferente. O jeito franciscano não é indiferente e se faz um grito profético. Viver, celebrar e falar é instaurar uma reflexão que impacta, que suscita debates, rejeições e críticas e também entusiasmos. No meio de tudo isto importa não perder a questão fundamental e manter a suficiente serenidade para ver as coisas se um modo bem claro, e não no embotamento das mídias.

Francisco de Assis não ficou apenas à mercê de análises sócio-teológicas, um ponto de vista vindo de fora. Ele se envolve lá onde está o povo com jeito penitente e pedindo mudanças. Ele não é apenas um homem que fez um caminho de santidade e ficou na lembrança das ladainhas. Ele torna-se um fato, um acontecimento. Foi para dentro da eclesiologia de então e saiu dos limites da Igreja para se tornar um fenômeno público da cristandade medieval e moderna.

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FREI VITORIO MAZZUCO

Fonte: http://carismafranciscano.blogspot.com.br/

 


 

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO – 4

Não basta estudar teologia; é preciso ser teólogo

Francisco de Assis transformou a fé num ato profundamente humano. Mostra a essência do Evangelho: ter fé é humanizar a vida. O único e verdadeiro conhecimento de Deus é o que está na Boa Nova, um Deus que sabe amar, que leva a amar, que convive entre atos concretos de amor. Francisco é um grande teólogo, embora não tenha estudado na UCP, Universidade Católica de Perugia, porque intui que não basta conhecer ou estudar teologia, é preciso ser teólogo.

O verdadeiro teólogo é aquele que desce com tal profundidade no cotidiano que começa a ver Deus em tudo. Ele foi considerado um Renovador Eclesial, mas isto não é tão excepcional assim, embora o jeito conservador não aceite, a Igreja sempre viveu de muita renovação. E de onde vem esta renovação? Porque há momentos que ela sai do circunscrito mundo de seus líderes e pessoas com carismas próprios e vai ao carisma do povo.

Francisco, ao ir ao povo com a força do Evangelho, faz uma volta às origens da História da Salvação. Porque a Palavra narra o que existiu antes da Palavra: um amor misericordioso de Deus e a vida do povo. Ler  e estar  na história sob o filtro do Evangelho, viver o Evangelho que estava na história, uma história que foi celebrada, rezada, virou culto, fraternidade, comunidade, memória dos fatos e espelho da Palavra de Deus. Francisco de Assis, com seu jeito, fez uma releitura bíblica reconstruindo lugares eclesiais e sociais.

As muitas guerras de seu tempo, o confronto entre nobres e plebeus, o conflito entre imperadores e papas, as Cruzadas, a estratificação social que dividiam maiores e menores, novos ricos e cidadãos em geral, camponeses, pobres, doentes e miseráveis, também gerou realidade de fome, de empobrecimento, de exploração e morte. Isto não deixou Francisco indiferente. O seu modo de viver o Evangelho em meio a tudo isto não é só uma pregação, mas um grito de alerta.

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FREI VITORIO MAZZUCO

Fonte: http://carismafranciscano.blogspot.com.br/

 


 

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO – 3

Fé e realidade não se separam

O Evangelho transformou o mundo a partir do tempo de Jesus e a pergunta é: como vamos fazer isto a partir deste tempo em que estamos vivendo? Estar numa Ordem é ajudar a ordem mais espiritual e social do mundo. Olhar o mundo e perceber que estamos numa sociedade que produz desnível de classes, produz o pobre e produz esta insatisfação toda que aí está. No tempo de Francisco de Assis não era diferente. Ele não foi em direção à riqueza, mas sim onde estava a Fraternidade.

A vivência fraterna existe para alimentar participação, cuidado e justiça. Isto não é apenas uma fundamentação sócio-política, mas um ideal cristão que mantém o projeto de Jesus, a transformação do mundo em Reino de Deus. Fraternidade não é apenas querer uma sociedade rica ou pobre, mas uma sociedade justa e solidária. Sem isso, do que adiantaria uma fé cristã professada e proclamada entre desmaios do espírito me dizendo: “aqui TL não entra!”. Claro que não  quero entrar no transe alienado que não vê desmaios de fome. Fé é encontro com a realidade colocando nela o sonho sagrado de Deus. Fé e realidade não se separam.

Nós queremos modernizar o nosso modo de crer e não vemos que a sociedade moderna separa riqueza de um lado e pobreza do outro. Diz que o marginalizado, o excluído, o fora das possibilidades é um ignorante. Francisco de Assis também foi considerado um ignorante porque se vestiu de pobre e marginalizado e foi lá cuidar dos excluídos, porque a estrutura feudal de seu tempo também gerou miséria. Francisco de Assis não era um ignorante, mas diferente. Sabia muito bem quem estava produzindo desigualdade e não quis ser igual aos iguais privilegiados.

A experiência de Francisco de Assis é muito rica e não se esgota num único aspecto; se bem que, talvez, muita gente gostaria que ele se reduzisse a viver atrás do balcão da loja de seu pai Pedro Bernardone ou então fosse viver a intensa e boa experiência de vida monástica. Francisco de Assis imerge na realidade da Úmbria e o seu modo de viver o divino, o religioso, o teologal é uma dimensão que atravessa tudo. Se ele nos legou uma espiritualidade e até uma teologia franciscana libertadora é por que experimentou, como diz Congar, “a gente só tem a teologia da própria prática”.

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FREI VITORIO MAZZUCO

Fonte: http://carismafranciscano.blogspot.com.br/

 


 

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO – 2

“O Evangelho não é apenas um texto bonito para ser lido”

Francisco de Assis fez uma rara aproximação com Deus abraçando o pobre com braços da Boa Nova. Abraçar o leproso, o maior ícone libertador de um processo penitencial e de conversão, foi um enlaçamento de vidas, um gesto profético, uma indignação ética, uma proximidade terna e vigorosa para mostrar que a exclusão é desumana e não agrada o Pai das Misericórdias. Abraçar o leproso foi mais que um encontro espiritual. Ali braços, lábios e rostos se entrelaçaram e apontaram o caminho de São Damião; e lá estava um Deus misturado no jeito abandonado das ruínas, um Deus despojado e crucificado.

A partir de então, Francisco de Assis percebe que a pobreza não é um indivíduo, mas um lugar social. A partir deste lugar ele sai para realizar um movimento de transformação pessoal e coletivo. Se existe o pobre é porque alguém ou uma estrutura produziu o pobre. Ele estava e vivia numa família e numa sociedade opulenta, e numa eclesiologia não menos opulenta. E não escolheu permanecer ali. Jesus Cristo não permaneceu na oferta feita pela tentação dos poderes de riqueza, segurança e adoração confortável. Jesus fez estrada nos empoeirados lugares da Palestina. Do estábulo de Belém, do jeito caseiro de Nazaré, para uma imersão no mundo dos que mais precisavam da presença de quem sonhava para este mundo o Reino. O leproso representa os paralíticos e cegos, os raivosos fariseus, a viúva de Naim, o Lázaro que volta à vida, a pecadora condenada que ia ser coberta de pedras, os doentes e excluídos do tempo, que só podiam contar com sua presença, toque, palavra e cura. O Evangelho não nasceu apenas dos pergaminhos da Palavra; o Evangelho nasceu resolvendo a história, mudando vidas, proclamando a justiça, anunciando a paz e a libertação, concretizando Isaías, ampliando a Lei, derramando o sangue dos apóstolos e mártires, e trazendo o sadio para a existência.

Francisco abraçou primeiro o leproso que surgiu no caminho, e depois foi abraçar a cruz de São Damião, o marco indicativo e final de um caminho glorioso de ressurreição. O Evangelho não é apenas um texto bonito para ser lido e comentado; ele é um programa de vida para aqueles que querem abraçar um Deus sangrando por amor do mundo e da humanidade. A Vida e a Regra do Irmão e Irmã é esta, viver o Libertador Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

continua

FREI VITÓRIO MAZZUCO FILHO

Fonte: http://carismafranciscano.blogspot.com.br/

 


REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO – 1

“Somos do Evangelho da Libertação!

As pessoas que interagem comigo nas mídias, de certa forma cobram uma palavra minha sobre a situação política que estamos vivendo. Não alimento o Facebook com opiniões sobre isso, porque considero o Facebook uma feira-livre onde se expõe de tudo e nem sempre com raízes reflexivas bem fundamentadas. É uma exposição de posts sem critérios, embora haja exceções, e ali também apareçam publicações precisas. Normalmente, partilho ali textos do meu blog: www.carismafranciscano.org.br, blog este que tem a finalidade de mostrar o olhar franciscano sobre temas necessários.  Mas aqui vou, então, manifestar o que penso, sob o filtro da inspiração franciscana, numa longa série de textos reflexivos.

O jeito da Minoridade vivida por tantos da Família Franciscana é renascer em cada lugar fiel a origem das três Ordens e suas frutuosas Ramificações. O jeito da Minoridade é ser menor e periférica. Muitos que me conhecem ou convivem comigo afirmam categoricamente ou perguntam: “Os frades são Teologia da Libertação? Ou dizem: “Todo frade, inclusive você, são TL”. Respondo sempre que, por inspiração divina e pela concretude de vida do nosso Fundador, São Francisco de Assis, somos do Evangelho da Libertação!

Então, o rótulo de TL, não soa para mim como uma pitada de ranço ideológico, mas sim como um elogio, uma honra e, um reconhecimento de oito séculos de tradição, prática e profecia. É orgulho e responsabilidade ser um “TL” por causa do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por Vida e Regra o Evangelho da Libertação é o nosso ponto de partida. Todo Evangelho é a máxima transparência da prática libertadora de Jesus Cristo.

Nossa Ordem tem um caráter espiritual e social; e no cerne deste caráter pulsa uma fonte mística que motiva nossas práticas. Começo, antes de qualquer análise, a partir da mística e da espiritualidade própria do Carisma.

CONTINUA

FREI VITORIO MAZZUCO

Fonte: http://carismafranciscano.blogspot.com.br/

 

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