Espiritualidade › 24/07/2017

Porque a Igreja existe?

“A Igreja existe, sobretudo, para liberar os homens do pecado e para acompanhá-los à vida eterna. Este é o propósito da Igreja. Por que a Educação é Chave na proteção da Vida, Matrimônio e a Família”.
Cardeal Carlo Caffarra

O Cardeal Carlo Caffarra explica para The Register por que os fiéis devem compreender as verdades católicas a respeito destes temas fundamentais e defendê-los em praça pública.

O Cardeal Carlo Caffarra, arcebispo emérito de Bolonha, Itália, tem uma mensagem chave a dar: Grandes esforços devem ser feitos na educação católica e na catequese se a Igreja deseja combater os atuais ataques contra o matrimônio, a vida e a família.

Em uma entrevista para The Register em Roma a 19 de Maio, o presidente fundador do Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre o Matrimônio e a Família (em latim Pontificium Institutum Joannes Paulus II Studiorum Matrimonii ac Familiae), também fez um chamado aos católicos para marcar presença nas praças públicas e chamar as coisas por seu nome. “Erro é erro”, disse. “Não existe paz entre a verdade e o erro”.

Um dos quatro cardeais das Dubia, preferiu não discutir esse tema na entrevista, mas advertiu acerca de uma recente tendência na Igreja, de separar a doutrina, ou a teoria, da prática pastoral, para ser visivelmente mais pastorais e compassivos. “A teoria sem a prática é como uma roda sem eixo”, disse. “A prática sem teoria é um cego no caminho. Dar prioridade à prática: Em primeiro lugar, isto é teologicamente falso”.

Sua Eminência, falou muito sobre a importância da família. Mas o que tem de fazer a Igreja para defendê-la contra a ideologia de gênero e outros ataques?

Creio que a primeira opção tem que ser uma proclamação do Evangelho sobre o matrimônio e a família, muito clara, muito completa e muito profunda, porque a situação já alcançou o ponto extremo, inclusive pondo em dúvida a própria definição de matrimônio.

A humanidade sempre defendeu o matrimônio como a legítima união entre um homem e uma mulher, com vistas à procriação e educação. Hoje esta definição foi posta em dúvida; algumas leis jurídicas têm posto inclusive uma definição diferente de matrimônio. Foi neste sentido que disse que temos chegado a um ponto extremo. Portanto, a Igreja necessita dizer ao homem: “Isto é o que Deus pensou para o matrimônio; isto é o que Cristo fez – porque o matrimônio é um caminho à salvação para um homem e uma mulher que se casam”.

O Evangelho sobre o matrimônio tem dois grandes capítulos: O primeiro é o bem do matrimônio na criação; o segundo é o anúncio da salvação do matrimônio, pelo que Jesus veio para pôr à luz, tanto em palavras como em comportamento.

Não devemos olvidar que o primeiro milagre feito por Jesus foi em favor de dois esposos durante o banquete nupcial. Assim que isto é o primeiro que necessita fazer a Igreja. O segundo, não menos importante, é a necessidade de um grande esforço em educar às jovens gerações, porque o coração de cada menino e cada menina deseja amar e ser amado, na verdade. De outra maneira, depois de um tempo, o assunto se torna aborrecido porque não é o que o coração queria.

Assim que este desejo, é necessário dizer, está inscrito, esculpido no coração de cada homem e mulher. A educação é necessária para liberá-lo de tudo o que o bloqueia, de maneira que se cumpra este desejo.

Darei um exemplo: Se há uma pedra cobrindo um manancial de água, o manancial continua existindo, mas a água não flui. Necessito desfazer-me da pedra; então o verdadeiro manancial dá toda sua abundância de água. É como se uma pedra estivesse cobrindo este desejo humano, e a Igreja, com seu trabalho educativo, necessita removê-la.

Como pode a Igreja resistir melhor a atual crise que enfrenta em seu interior?

Creio – direi isto tal qual – que o ponto ao qual temos chegado é uma estação final de um longo processo. Estou falando do Ocidente e de um processo que já dura séculos. Seria portanto ingênuo pensar que em uns poucos anos – às vezes penso que em poucas gerações – alguém poderia corrigir este processo, dar marcha ré. Isto deve dizer-se como uma premissa. Não é como se São Bento tivesse visto imediatamente as consequências das comunidades que ele fundou nos bosques ao redor de Roma. Foi necessário ter todo um processo de civilização. Devemos recordar isto sempre para não ser ingênuos.

Sendo mais precisos para responder esta pergunta, creio que há, sobretudo, uma estratégia de ação rápida, e esta é que: Não podemos seguir permitindo-nos o acostumar-se a esta ausência real de leigos católicos nos lugares onde se fazem as normas e leis jurídicas. Pelo que deve existir uma forte presença de católicos, posto que não só é um bem para os cristãos; ao contrário, é um bem que pertence à criação, ao matrimônio e a família. Não obstante, as leis por si mesmas não resolvem o problema. Portanto, a estratégia a longo prazo é o ocupar-nos nós mesmos em um grande trabalho educativo.

Santo Tomás, no princípio da Summa, diz que as antíteses não podem coexistir. E dá um exemplo: Diz que o doutor, pelo fato de querer que o enfermo se recupere, luta contra a enfermidade. Querendo alguém um [a saúde da pessoa] significa que não quer o outro [a enfermidade]. Santo Tomás continua: O homem sábio busca o primeiro princípio, Deus o criador; portanto, combate o erro que obscurece a verdade que está buscando.

Santo Agostinho é ainda mais incisivo, pois diz: ama o que erra, mas persegue o erro. O verbo correspondente em latim é um que os gramáticos chamam empático. Não significa tolerar o erro, mas arrancá-lo e mostrar sua insubstancialidade.

Portanto, há três coisas: Leis; a presença de cristãos em parlamentos, instituições públicas; segundo, um grande trabalho de instrução; e terceiro, chamar as coisas por seu verdadeiro nome. Erro é erro. Não existe paz entre a verdade e o erro.

Hoje o problema é que a gente não fala o suficientemente forte contra o pecado?

Sim, em lugares de aprendizagem. Não se segue a estratégia de Santo Tomás no princípio da Summa contra os Gentios [de anunciar o pecado]. Pelo contrário, inclusive é menosprezada.

Também vi isto amiúde quando fui o pastor titular na Bolonha. Em minha opinião, em lugares de aprendizagem, já tampouco há educação no verdadeiro amor à verdade. Pelo contrário, muita gente ensina aos jovens que a busca da verdade é uma paixão triste e inútil que só pode produzir intolerância. Neste ponto, a pessoa está perdida e se encontra a si mesma, diria o famoso filósofo, ante caminhos que não levam a lado nenhum.

Qual é sua opinião de Amoris Laetitia neste sentido?

Antes que nada, há um capítulo completo sobre educação, o qual, para mim, é muito importante. Segundo, se supõe que o capítulo inicial, mediante o comentário a um Salmo, descreve o matrimônio e a vida em família à luz do plano de Deus. Estes são, com respeito a Amoris Laetitia, a segunda parte de Familiaris Consortio – toda a grande catequese de João Paulo II sobre o matrimônio e a família.

Temos uma riqueza [de ensinamentos] que pode ajudar-nos neste difícil momento. Mas, como diz um grande poeta alemão, onde aumenta o perigo, aumenta a salvação.

Olhando atrás em sua época com o Pontifício Instituto João Paulo II, quais, de acordo com o senhor, deveriam ser suas prioridades?

A respeito do instituto, creio que posso dizer que foi uma das coisas mais apreciadas por João Paulo II. Posso mostrar-lhe isto com numerosas provas. As prioridades, os motivos, para a investigação estão escritas na constituição apostólica, as quais dirigem o instituto.

Cada grande programa pastoral para o matrimônio e a família indica, e portanto requer, um verdadeiro conhecimento do matrimônio e da família. Não é o caso que, diminuindo a dimensão doutrinal, se torna alguém mais pastoral. Torna-o mais ignorante. Na época medieval, se dizia que a teoria sem a prática é como uma roda sem eixo. A prática sem teoria é um homem cego no caminho. Dar prioridade à prática: Em primeiro lugar, isto é teologicamente falso.

É uma compaixão falsa

Sim, e tornarei a isto mais adiante. Porque cada prática pressupõe um projeto intelectual. A segunda razão é que a base da vida cristã não é a caridade; a caridade é a perfeição da vida cristã. A base é a Fé.

Uma vida cristã sem fé é como a casa, da que falou Jesus, construída sobre areia. Já não está construída sobre a Palavra de Deus, assim que não se sustem. Pôr a caridade antes da fé mediante a categoria de compaixão nos leva a um beco sem saída, se se detém só na compaixão. O samaritano não se deteve só para dizer: “Pobre diabo, olha como o trataram”, e depois seguiu seu caminho. Não. Ele verdadeiramente é compassivo e se encarrega da pessoa, utilizando os instrumentos adequados; do contrário como se faz encargo de uma pessoa se não se sabe o que essa pessoa realmente necessita?

O resultado é a desordem

Sim, temos chegado. Certamente isto é certo. Aristóteles disse que não há nada maior que ensinar filosofia a um homem. Mas se se encontra com um homem que tem fome, não lhe ensine filosofia em primeiro lugar. Primeiro alimenta-o, e então ensina-o filosofia.

Santo Tomás se põe de acordo com este texto. É evidente que se necessita alimentar o faminto, sem o qual o homem já não é homem – este perde sua dignidade. Entretanto, estas não são as únicas necessidades do homem. Um grande teólogo medieval, Santo Alberto o Grande, disse que as necessidades do homem são duas: em dulcedine societatis inquirere veritatem — “na doçura de uma boa vida com outros, busca a verdade”. Isto nos mostra a grandeza do homem.

O problema é que, na Igreja, temos perdido de vista o céu, porque se põe muita atenção a este mundo e não ao que vem?

Diria que quando o senhor fala da Igreja, está falando de uma ampla realidade. Mas diria que estamos correndo o risco de fazer isto; estamos em perigo de fazer isto, olvidar que a Igreja, em suas bases, não é uma ONG ou uma sala de emergências da Cruz Vermelha Internacional. A Igreja existe, sobretudo, para liberar os homens do pecado e para acompanhá-los à vida eterna. Este é o propósito da Igreja.

Jesus nos ensinou não obstante que isto implica, também, atenção à pessoa e suas necessidades. Em torno a Jesus, sempre houve gente enferma. Jesus os curou, Jesus se encontrou a si mesmo ante uma multidão faminta. Jesus multiplicou os pães. Jesus soube muito bem quem era Zaqueu, isto é, um coletor de impostos injustos, porque os impostos também podem ser injustos.

Mas o curou desta profunda enfermidade do coração. Como dizia anteriormente, este é o fim último da Igreja.

Edwaed Pentin é correspondente em Roma para The Register.

Traduzido por Airton Vieira

Fonte: Sensus Fidei

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