Espiritualidade › 06/06/2017

O mundo luminoso e fraterno de São Francisco

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O Cântico do Irmão Sol

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
Petrópolis, RJ

Vivemos a era do Papa Francisco. Quando o cardeal argentino Jorge Bergoglio escolheu este nome para ser designado como Papa estava começando a tecer um programa de pontificado. Somos muito gratos ao Papa por sua Carta Encíclica Laudato Si’ e por suas referências carinhosas a São Francisco de Assis. Apoiados em reflexões de Frei Éloi Leclerc, franciscano francês falecido ano passado, oferecemos aqui uma meditação sobre o Cântico das Criaturas do Poverello de Assis.

O Cântico

Altíssimo, onipotente, bom Senhor,
teus são o louvor, a glória e a honra
e toda a bênção.

Só a ti, Altíssimo são devidos;
e homem algum é digno
de te mencionar.

Louvado sejas, meu Senhor,
com todas as tuas criaturas,
especialmente o senhor irmão Sol,
que clareia o dia
e com sua luz nos alumia.

E ele é belo e radiante
com grande esplendor:
de ti, Altíssimo é a imagem.

Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã Lua e as Estrelas,
que no céu formaste claras
e preciosas e belas.

Louvado sejas, meu Senhor,
pelo irmão Vento,
pelo ar ou nublado,
ou sereno e todo o tempo,
pelo qual às tua criaturas dás sustento.

Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã Água,
que é mui útil e humilde
e preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor,
pelo irmão Fogo
pelo qual iluminas a noite.
E ele é belo e jucundo e vigoroso e forte.

Louvado sejas, meu Senhor,
por nossa irmã a mãe Terra,
que nos sustenta e governa,
e produz frutos diversos
e coloridas flores e ervas.

Louvado sejas, meu Senhor,
pelos que perdoam por teu amor,
e suportam enfermidades e tribulações.

Bem-aventurados os que as sustentam em paz,
que por ti, Altíssimo serão coroados.

Louvado sejas, meu Senhor,
por nossa irmã a Morte corporal,
da qual homem algum pode escapar.

Ai dos que morreram em pecado mortal!
Felizes os que ela achar
conformes à tua santíssima vontade,
porque a morte segunda não lhes fará mal!

Louvai e bendizei a meu Senhor,
e dai-lhe graças e servi-o em grande humildade.

Comentários:

Durante o outono de 1225, um ano antes de sua morte, macerado pelas doenças, tendo os olhos que não podiam suportar a luz, Francisco de Assis compôs o seu mais alegre texto, o Cântico do Irmão Sol. Em julho de 1226, acrescentou a penúltima estrofe que decantava o perdão e a paz, tendo em mente reconciliar o bispo com o prefeito de Assis. Posteriormente, no começo de outubro de 1226, quando ficou sabendo por parte de seu médico que o dia de sua morte se aproximava, compôs a última estrofe do Cântico, uma agradecida saudação à “irmã morte corporal”!

O “Cântico do Irmão Sol” exprime um puríssimo amor pela natureza. Não podemos ver nesse poema apenas uma peça de delicada poesia ou um maravilhoso relato. Sob o ponto de vista cultural trata-se de documento exponencial. Primeiramente por seu valor literário: o texto original que marca os inícios da literatura italiana sempre provocará admiração a artistas por seu ritmo, com sua musicalidade e sua leveza. É importante, no entanto, principalmente pela atitude de fundo que lhe dá fundamento. Trata-se da afirmação do esplendor do universo, uma adesão sem reserva, entusiasta à matéria em si, afirmação do valor das coisas e de sua beleza.

UMA FRATERNIDADE CÓSMICA

O encantamento cósmico de Francisco inspira-se nos salmos e cânticos da Bíblia, de modo particular no cântico dos jovens na fornalha ardente. Há, no entanto, nesse Cântico, há algo a mais, algo que não transparece dos escritos bíblicos: Francisco fraterniza com os elementos materiais. Não somente ele os designa de irmãos e de irmãs, mas segundo o seu primeiro biógrafo, o santo experimenta sentimentos fraternos para com eles. É novidade tal visão.

Na realidade, o que pode bem significar esta fraternidade cósmica?

A resposta é simples. Ela está estampada no olhar que Francisco dirige aos seres e às coisas. O Poverello decidiu não possuir o mundo. Não utilizá-lo. Não dominá-lo.
Recusa-se a ser mestre todo poderoso dos seres e das coisas. Há um só Altíssimo e Bom Senhor.

Temos dificuldade, hoje em dia, em compreender esta postura de humildade diante das coisas. Nossa civilização industrial nos leva a sermos mestres e donos da natureza. Deus sabe bem com o maltratamos a magnífica natureza! Reduzimo-la a um objeto de exploração em nossas mãos. Hoje damo-nos conta da devastação operada e que é tempo de fazer uma revisão de nossa atitude se quisermos que a natureza não seja, mais dia menos dia, completamente destruída. Francisco se recusava a dominar as coisas. Dava-se conta que as criaturas provinham no mesmo amor criador que nós, seres humanos. De alguma forma via que elas refletiam algo do poder e da beleza do amor original. A seu ver um mesmo elã de amor engendrara todos os seres e criava entre eles laços de parentesco. Esse olhar fraterno levou Francisco a se aproximar das coisas com imenso respeito e alimentar com elas verdadeira amizade.

Há um outro aspecto, não menos verdadeiro desta fraternidade. As criaturas demonstram serem amigas de Francisco. Todo o universo se lhe apresentava fraternal. Os diversos elementos cantados por em seu Cântico nada apresentam de hostilidade. O fogo ilumina sem queimar; o vento sopra sem devastar; a água é “útil e humilde, preciosa e casta”. Os elementos da natureza perderam para ele seu caráter amedrontador. Pode ser que uma tal visão do mundo venha a parecer idílica e ingênua. Não nos enganemos. O mundo luminoso e fraterno de Francisco de Assis reflete uma purificação interior que alcançou penetrar com claridade todos os impulsos da natureza, a espiritualiza-los, despoja-los do amor próprio que os corrompe. Tocamos assim o sentido mais íntimo do Cântico do Sol.

Tal transfiguração não teria podido se produzir sem uma experiência de reconciliação. Só conseguimos nos libertar quando nos reconciliamos. É significativo que Francisco tenha acrescentado ao seu cântico estrofes louvando o perdão e a paz. Tal cântico é aquele do homem que conseguiu domesticar o lobo que cada um carrega dentro de si e que desta forma se tornou o irmão universal.

O CÂNTICO DO HOMEM SALVO

Quando ouvimos Francisco cantar os elementos é, ao mesmo tempo, seu sonho profundo que nos faz ouvir. Seu cântico é o borbulhar das fontes que veem à luz. É o canto do homem salvo em sua totalidade, tão unificado em Deus que todos os conflitos que dilaceram a consciência comum se apaziguam nele. Sua visão do mundo reflete aquilo que ele mesmo está se tornando: um ser inteiramente luminoso, penetrado e renovado pelo Espírito até mesmo em suas raízes carnais.

O Cântico decanta a nova criação no centro da existência humana. É a confissão inconsciente, lírica espontânea de um homem no qual as forças de vida reencontraram a transparência das fontes e o brilho do sol.

Cf. Éloi Lecrerc, OFM
Revista Prier, outubro de 1978.

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