Espiritualidade › 25/01/2018

Inspirações Franciscana para um ano novo

INSPIRAÇÕES FRANCISCANAS PARA UM NOVO ANO – 3

No seu Testamento, Francisco de Assis diz de um modo claro: “E fiz misericórdia com eles” (Test 2). Aqui se trata da sua imersão no mundo dos leprosos de seu tempo. Uma coisa é saber que existe sofrimento na realidade, outra coisa é ir trocar as ataduras purulentas dos que têm a carne podre, dar comida e banho e um abraço. O Ano Novo fez o belo rito de passagem chamado reveillon com fogos, festas e brindes. Mas a vida continua oferecendo os mesmos desafios. Fazer um Ano Novo significa mudar de lugar como Francisco de Assis mudou. Para ele, relacionamento é ir onde estão as pessoas. O novo vem de encontros e saber o que se passa no lado de lá, é preciso ir lá e fazer, há um abraço, um beijo e uma aproximação ainda não realizada.

Para Francisco de Assis, um grupo humano e sociedade ou é comunidade viva, modo de fazer fraternidade; é lugar de encontro e mudança, ou se vai ali para ser irmão e irmã ou se é apenas mais um entre muitos que se ignoram nas pressas do dia a dia. Viver o Ano Novo de modo franciscano é saber que cada dia as relações possibilitam fraternidade e devem fazer fraternidade.

O jeito franciscano vai para o Ano Novo com a força do Evangelho. Onde o Evangelho foi escrito e vivido? No empoeirado chão palestino. Fazer a Boa Nova valer curando os que precisavam de cura e fazendo Zaqueu descer do galho de seus corruptos privilégios para deixar que a ética entre em sua casa. É ir a casa do que explora e dizer: isto não é permitido, e fazer com ele uma refeição com pratos que alimentam não só a barriga, mas a consciência.

A atividade pastoral de Francisco foi sempre esta prática de ir amorosamente como cuidador, e bem direcionada aos camponeses, aos pobres, e aos frades mais emblemáticos em seus problemas. No Ano Novo franciscano, a pastoral tem que ter e sentir cheiro de suor e de ovelha. Sentir o estranho gosto do diferente. Fazer unidade com eles, de um modo muito especial, com os pobres e desfavorecidos da terra.

No Ano Novo, como Francisco de Assis, temos que ir à Criação e perceber que todo ser criado, toda a natureza é um projeto do Amor de Deus, onde tudo tem valor e significado. É preciso fazer lugar na mãe terra para não deixar a vida ser apenas usada, vendida, explorada e deteriorada.

No Ano Novo, temos que perceber onde está a fragilidade humana, onde estão os conflitos e os gritantes problemas. Arrumar um espaço para que a partir dali seja uma base de soluções. E se um imigrante, um cracudo, um transgênero bater a sua porta, você vai deixar entrar? A perfeita alegria é abrir portas no lugar do fechamento.

Que seja um Ano Novo de justiça; mais do que lei, a justiça é vontade de Deus. A maior justiça que deve ser feita é a discernimento neste ano de eleições. Política no Brasil não tem nada de novo; apenas um velho sistema de abusos e escândalos. Pergunte, antes de votar, se o seu voto está de acordo com a vontade de Deus e dos Profetas. Você não pode trair a história da salvação e nem o anúncio do Evangelho que quer instaurar um Novo Tempo. Francisco de Assis nos ensinou que mudar estruturas é mudar coração e mentalidade. É preciso fazer mudança com eles!

E que o Franciscanismo nunca perca o seu jeito de ser religioso, que também sempre foi um novo jeito social, denúncia e esperança, o bem da paz e gerador de irmandade. Feliz Ano Novo, fazendo com Francisco de Assis! Paz e Bem!

FREI VITORIO MAZZUCO


INSPIRAÇÕES FRANCISCANAS PARA 2018 – 2

Revendo o Documento do Capítulo Geral da Ordem dos Frades Menores de 2015, parágrafo 11, encontro ali: “No passado, quando se formava uma tempestade no mar, os marinheiros normalmente jogavam na água o peso supérfluo, como nos atesta também o livro de Jonas (Jn 1,5). Nós também somos convidados a retornar à pobreza e a nos livrarmos do supérfluo. Em nosso tempo, também nós devemos jogar fora as nossas falsas seguranças e vencer a onda do medo e da angústia através da nossa fé em Deus”. No final de ano e início de ano é um bom tempo de fazermos um rito de passagem limpando gavetas e armários, reduzindo cabides e coisas. Há certos acúmulos que não servem mais. O Papa Francisco nos diz que certas tradições não nos servem mais. Ajuntamos coisas das necessidades que não pertencem mais aos nossos desejos. Desapego é sempre um bom jeito de recomeçar. Mas não só de coisas, mas de certas convicções que estão no amontoado do sótão de nossa consciência.

Ainda acumulamos preconceitos contra as culturas, credos, etnias, condição social e nível de formação.  Há ainda amargura nas relações. Intolerância gera um ódio nocivo a saúde do corpo e alma. Há muita raiva e pouco humor. O outro e a outra não são inimigos. Sua opção religiosa ou afetiva não são um perigo. A vida particular de uma pessoa não interessa para ninguém; isto está entre a consciência pessoal dela e de Deus. O que interessa é a obra que ela faz e a obra que ela está legando para a humanidade. Hoje temos dificuldades se o nosso vizinho é espírita, se é umbandista, evangélico ou esotérico. Quem sou eu para dizer que meu catolicismo é mais coerente do que a fé que ele professa? Agredir a religião do outro significa que há um enfraquecimento na minha fé. O Espírito de Assis dialoga com culturas e religiões. Francisco dialoga com o sultão numa troca de experiência de fé. Para Francisco de Assis não precisa haver guerra entre cristianismo e islamismo quando é possível dialogar no que as pessoas possuem de mais bonito: a fé! Em 2018 devíamos exercitar mais a tolerância.

Na Regra Bulada 6,8, Francisco de Assis fala do cuidado de mãe: “Se a mãe ama e nutre o seu filho carnal, quando mais diligentemente deve cada um amar e nutrir seu irmão espiritual?” E ainda citando o Documento do Capítulo Geral de 2015, no parágrafo 15:  “Falando de mãe, Francisco tem diante dos olhos o ideal de mãe natural, mas também nos convida a darmos um passo adiante para viver uma maternidade espiritual, Ser misericordioso significa ter o coração de mãe, que quer dar tudo o que é bom ao seu filho (…) O Papa Francisco recorda que os cristãos são chamados a viver a alegria do Evangelho e convida à reflexão sobre o fato de que “quando em uma família se perde a capacidade de sonhar, as crianças não crescem e o amor não cresce, a vida enfraquece e apaga-se” ( Papa Francisco, Discurso em Manila, 16/05/2015 ).Mais uma vez,  devemos  cultivar os nossos sonhos para uma vida mais plena”.

Outro dia uma pessoa muito querida me dizia, o meu cachorrinho é muito feliz porque é muito amado. E realmente, ao conviver com o cãozinho, ele era uma inteira energia que fazia vibrar uma intensa felicidade. E as pessoas? Por que nas famílias há muitas brigas e nas fraternidades de vida religiosa e vida franciscana há tensões por coisas banais? Por que somos mais pais e mães dos pets e não dos consanguíneos? Por que em nossas fraternidades o Ser irmão e irmã é tão estranho que nos sentimos num hotel e não numa vida de convivência fraterna?  Que em 2018 isto seja também motivo de mudança.

Textos inspiracionais das nossas Fontes, extraídos da Crônica de Tomás de Eccleston: 

“Porque o justo deve julgar sua vida pelo exemplo dos melhores, uma vez que os exemplos quase sempre compungem mais do que as palavras da razão; para que tenhais algo de próprio com que possais confortar vossos caríssimos filhos” (Ec 2).


“Os irmãos daquele tempo, tendo as primícias do Espírito, serviam ao Senhor não com constituições humanas, mas com livre afeto de sua devoção” ( Ec 27)


“Em todo tempo, os irmãos eram tão bem humorados e alegres entre si que apenas por olhar-se mutuamente se entregavam ao riso” (Ec 28).


“(…) Tu és menor pelo nome, sê menor pelos atos,
Suporta a fadiga, e a paciência rebaixe a mente soberba.
Na verdade, o coração censura a mente pequena,
A paciência purifica, quando algo é de lama;
Se alguém te corrige, este é quem te guarda;
Ele odeia não a ti, mas o mal que tu fazes. (…)
Será apenas uma sombra do menor
Aquele que busca o nome sem a realidade.” (Ec 37).

 

“Oh! Quão fortemente obrigados, oh quão docemente vencidos pelos benefícios divinos, oh quão honrados por imensa dignidade foram aqueles que nas dúvidas puderam ser dirigidos pelos conselhos, nos acontecimentos tristes ser confortados pelas consolações, nas coisas graves ser provocados pelos exemplos de tantas e tais pessoas que tinham as primícias do espírito! Oh graça inefável, oh prerrogativa incomparável, oh afeição suavíssima de doçura inexaurível, poder gozar a amizade de tão grandes homens, alegrar-se na presente peregrinação peço especial afeto de pessoas tão eminentes, recomendar-se pela graça de homens tão famosos “ (Ec 116 ).


“Disse ainda um frade pregador: “Três coisas são necessárias para a saúde temporal: o alimento, o sono e o bom humor”. Ordenou igualmente a um irmão melancólico que bebesse por penitência um cálice cheio de ótimo vinho; e como este tivesse bebido até ao fim, disse-lhe: “Irmão caríssimo, se tivesse frequentemente tal penitência, terias em todo caso uma consciência melhor” ( Ec 118).

Que façamos uma humorada crônica de nossa vida em 2018! Paz e Bem!

FREI VITORIO MAZZUCO


ALGUMAS INSPIRAÇÕES FRANCISCANAS PARA 2018 – 1ª parte

A Regra Não Bulada 10,8 registra uma das mais belas palavras de Francisco de Assis: “Possuir o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar”. Um Capítulo dos Frades da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil tinha o sugestivo lema: “Para onde nos conduz o Espírito?” Oportuna as palavras de Francisco de Assis para este novo ano, pois podemos iniciar com aquela sensação com que terminamos 2017: há uma desesperança no ar.  Buscamos sempre soluções econômicas, políticas, financeiras, jurídicas e terapêuticas. Em meio a tudo isto nos sentimos perdidos numa clareira em meio a uma floresta fechada. Vamos filtrar mais pelo Espírito. Buscar o discernimento espiritual. Há uma força que pode iluminar o sentido das decisões que temos que tomar. Há razões mais fortes que inspiram nossas escolhas. Não podemos perder o otimismo do caminho e com ele energizar nossos passos. A retrospectiva de 2017 nos assustou, mas algo tem que mudar em 2018.

Vamos nos abandonar mais fervorosamente ao Espírito do Senhor e ao seu santo modo de operar. Há um Pentecostes em cada sala de nossa vida e uma Porciúncula nos apontando que não estamos sós. Se não temos segurança na Constituição Brasileira tão remendada e desobedecida, possuímos a força do Evangelho. A Boa Nova é sempre a lucidez para as nossas escolhas. O Evangelho pede para dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Justiça não tem meio termo, é decisão. Estamos do lado da Palavra que é luz para os nossos passos e não do lado dos incontáveis posts de Facebook e Whattsapp que dão opinião sem raiz. Eu penso a partir de que valor maior? É minha opinião ou componho uma colcha de retalhos com retalhadas opiniões que não são fundamentadas em nada.

Francisco de Assis criou uma revolução a partir do Evangelho e rompeu com a revolução econômica da época. Hoje a revolução econômica decide globalmente o destino das pessoas. Eu quero ir por este caminho? Francisco de Assis espalhou verdades incontestáveis da Boa Nova em cartas, admoestações, preces e regras de vida. E o que eu coloco na revolução digital internética que permite colocar opiniões com velocidade avassaladora?  Estou tendo a lucidez críticas das palavras?  A maior crise que existe é a perda da identidade humana imersa em conceitos de revolução tecnológica e laboratórios que violentam a natureza. Como me posiciono diante das formas de pobreza que se estendem pelas calçadas da minha vizinhança? E o medo, a agressividade, a violência, vão diminuir com a Campanha da Fraternidade deste ano? Como acolher as quedas de fronteiras que colocaram o movimento migratório bem perto de nós, espalhando a diversidade étnica e cultural em nossas cidades e vilas?

Há mudanças climáticas que desmoronam lugares enquanto governos constroem privilégios para o futuro de alguns. O mundo mudou muito, mas a pessoa não quer mudar e fica no “está bom assim mesmo”.  É preciso buscar o Espírito do Senhor para sair da estagnação.

Vamos buscar nos “Ditos do Beato Egídio” algumas iluminações para o que acima afirmamos:

 
“Os santos e as santas procuraram praticar as coisas em que acreditavam e que podiam realizar. As que não puderam praticar de fato, praticaram-nas pelo desejo. E assim o santo desejo cumpriu o que faltou a ação. Se alguém tiver uma fé íntegra, chegaria a ponto de ter certeza absoluta. Portanto, se realmente crês, deves agir bem”.

“Quanto mais alguém se alegra com o bem do próximo, tanto mais participará dele. Portanto, se quiseres participar do bem de todos, alegra-te com o bem de todos. Por isso, se o bem dos outros te agradar, faze-o teu; e se o mal dos outros também a ti não agradar, cuida-te dele”.

 
“Quem não quer honrar os outros não será honrado; quem não quer compreender não será compreendido; quem não quer se afadigar, não terá repouso”.

“Não somos fortes em suportar tribulações, porque não somos bons seguidores das consolações espirituais”.

“Disse-lhe um certo frade: “Que faremos, se nos sobrevierem grandes tribulações?” Respondeu Frei Egídio: “Se o Senhor fizesse chover pedras e rochedos do céu, estes não nos fariam mal, se fôssemos como deveríamos ser. Se o homem fosse como deveria ser, para ele o mal se converteria em bem”.

“O homem perde a perfeição por causa de sua negligência”.

“Se todos os campos e vinhedos do mundo pertencessem a um só dono, e ele não os cultivasse e nem os deixasse cultivar, que fruto se colheria? Mas se outro possuísse poucos campos e vinhas e os cultivasse bem, deles tiraria fruto para si e para muitos”.
 

“Não é feliz o homem que, tendo boa vontade, deixa de coloca-la em ação por meio de boas obras. Porque Deus dá a sua graça exatamente para que seja seguida”.

 
“Bem-aventurado quem não se deixa abater por nada que venha deste mundo; mas se deixa edificar por tudo o que vê, ouve e sabe, e de tudo procura tirar algum proveito”. 

“Vejo muitos que trabalham para o corpo e pouco para a alma. Muitos trabalham para o corpo quebrando pedras, escavando montes ou outros trabalhos pesados. E pela alma, quem se afadiga com tanto esforço e ardor?”

“Não se pode possuir uma grande graça com tranquilidade, porque sempre surgem muitas lutas contrárias”.

“Quem quer saber bastante, incline a cabeça, trabalhe muito e se abaixe até o chão. E o Senhor lhe dará muita sabedoria”.

“Quem mais ama, mas deseja!”

“Dize poucas palavras, mas úteis e pensadas”.

“Não leves contigo nada que seja extravagante, porque o coração se perde com tais coisas”.
 

 “Foge dos boatos inúteis, porque com eles a vontade do homem muda facilmente”.

“O que é humildade? Restituir o que não te pertence”.

“O bom costume é o caminho para todo o bem”.

Frei Egídio era hortelão de um convento primitivo de frades. Construiu seu pensamento com a oração, de olho no Evangelho e na enxada. Deixou estas pérolas para inspirar nossa vida.

 Paz e Bem!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

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