Notícias › 24/04/2018

Giro de notícias, com Papa Francisco.

Papa: nunca prisioneiros de palavras ou fechados ao Espírito

O Pontífice celebra a missa na capela da Casa Santa Marta e recorda que os filhos de Deus são homens livres, capazes de “discernir os sinais dos tempos”.

Cidade do Vaticano

Na história do homem “sempre haverá resistência ao Espírito Santo”, oposições às novidades e às “mudanças”. Na homilia da missa celebrada em Santa Marta, o Papa Francisco reflete sobre a liturgia de hoje, detendo-se sobre as diferentes atitudes que o homem adota diante das novidades do Senhor, que “sempre vem ao nosso encontro com algo novo” e “original”.

Os prisioneiros de ideias

No Evangelho de João, o fechamento dos doutores da lei é bem focalizado, atitude que então se torna “rigidez”. São homens capazes de se concentrar apenas em si mesmos, inertes à obra do Espírito Santo e insensíveis às novidades. O Pontífice enfatiza, em particular, a sua completa incapacidade de “discernir os sinais dos tempos”, sendo escravos de palavras e ideias.

“Eles voltam à mesma questão, eles são incapazes de sair daquele mundo fechado, eles são prisioneiros das ideias. Eles receberam a lei que era vida, mas eles a ‘destilaram’, eles a transformaram em ideologia e assim giram, giram e são incapazes de sair e qualquer novidade para eles é uma ameaça”.

A liberdade dos filhos de Deus

Muito diferente, no entanto, deveria ser o calibre dos filhos de Deus, que apesar de ter talvez uma reticência inicial são livres e capazes de colocar no centro o Espírito Santo. O exemplo dos primeiros discípulos, contado na Primeira leitura, destaca sua docilidade ao novo e a capacidade de semear a Palavra de Deus, mesmo fora do padrão usual de “sempre se fez assim”. Eles, observa Papa Bergoglio, “mantiveram-se dóceis ao Espírito Santo para fazer algo que fosse mais do que uma revolução”, “uma mudança forte”, e ao centro “estava o Espírito Santo: não a lei, o Espírito Santo” .

“E a Igreja era uma Igreja em movimento, uma Igreja que ia além de si mesma. Não era um grupo fechado de eleitos, uma Igreja missionária: na verdade, o equilíbrio da Igreja, por assim dizer, está precisamente na mobilidade, na fidelidade ao Espírito Santo. Alguns dizem que o equilíbrio da igreja se assemelha ao equilíbrio da bicicleta: está parada e vai bem quando está em movimento; se você a deixa parada, cai. Um bom exemplo”.

Oração e discernimento para encontrar o caminho

Fechamento e abertura: dois pólos opostos que descrevem como o homem pode reagir diante do sopro do Espírito Santo. O segundo, conclui o Papa Francisco, é precisamente “dos discípulos, dos apóstolos”: a resistência inicial não é apenas humana, mas é também “uma garantia de que não se deixam enganar por alguma coisa e depois com a oração e o discernimento encontram o caminho” “.

“Sempre haverá resistência ao Espírito Santo, sempre, sempre, até o fim do mundo. Que o Senhor nos conceda a graça para saber resistir ao que devemos resistir, ao que vem do maligno, ao que que nos tira a liberdade e saibamos nos abrir às novidades, mas somente àquelas que vêm de Deus, com o poder do Espírito Santo e nos conceda a graça de discernir os sinais dos tempos para tomar as decisões que deveremos tomar naquele momento”.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/papa-francisco/missa-santa-marta/2018-04/papa-santa-marta-missa.html

 


Papa aos novos sacerdotes: não se cansem de ser misericordiosos

“Por favor, não se cansem de ser misericordiosos. Pensem nos pecados de vocês, nas misérias de vocês que Jesus perdoa. Sejam misericordiosos!” Foi a exortação do Papa Francisco aos dezesseis novos sacerdotes.
Cidade do Vaticano

“Conscientes de terem sido escolhidos entre os homens e postos ao serviço dos homens nas coisas que são de Deus, realizem com verdadeira caridade e alegria constante a obra sacerdotal de Cristo, unicamente intentos a agradar a Deus e não a vocês mesmos ou aos homens, por outros interesses. Somente serviço a Deus, para o bem do Santo povo fiel de Deus.”

Foi a exortação do Papa Francisco aos dezesseis novos sacerdotes por ele ordenados na Basílica de São Pedro na missa deste IV Domingo da Páscoa, também conhecido como Domingo do “Bom Pastor”, ocasião em que a Igreja celebra o Dia Mundial de Oração pelas Vocações.

Em sua homilia, na qual apresentou aos novos presbíteros o significado, importância e implicações do novo ministério ao qual foram chamados, Francisco os exortou a não se cansarem de ser misericordiosos.

Crer o que ler, ensinar o que crer e viver o que ensinam

Distribuam a todos a Palavra de Deus que vocês mesmos receberam com alegria. Meditando na lei do Senhor, procurem crer o que ler, ensinar o que crer e viver o que ensinam, frisou o Pontífice, fazendo uma premente exortação:

“O ensino de vocês seja alimento para o povo de Deus, alegria e sustento aos fiéis de Cristo, o perfume de suas vidas. E com a palavra edifiquem a Casa de Deus que é a Igreja. Exercerão também, em Cristo, o múnus de santificar. Pelo ministério de vocês se realiza plenamente o sacrifício espiritual dos fiéis, unido ao sacrifício de Cristo, que, juntamente com eles, é oferecido por suas mãos sobre o altar, de modo sacramental, na celebração dos santos mistérios.”

Caminhar na vida nova

Tomem, pois, consciência do que fazem, imitem o que realizam. Celebrando o mistério da morte e da ressurreição do Senhor, esforcem-se por fazer morrer em vocês todo o mal e por caminhar na vida nova. Com o Batismo vocês acrescentarão novos fiéis para o Povo de Deus. Com o Sacramento da Penitência perdoarão os pecados em nome de Cristo e da Igreja, continuou o Santo Padre acrescentando ao texto da homilia mais uma exortação aos novos sacerdotes:

“Por favor, não se cansem de ser misericordiosos. Pensem nos pecados de vocês, nas misérias de vocês que Jesus perdoa. Sejam misericordiosos. Com o óleo santo darão alívio aos enfermos. Celebrando os ritos sagrados e oferecendo nas várias horas do dia a oração de louvor com ações de graças e súplicas, serão voz do Povo de Deus e de toda a humanidade.”

Congregar os fiéis numa só família

Por fim, participando da missão de Cristo, Cabeça e Pastor, em comunhão filial com o Bispo de vocês, procurem congregar os fiéis numa só família, a fim de poder conduzi-la a Deus Pai, por Cristo, no Espírito Santo, disse ainda o Papa Francisco antes de fazer sua última recomendação:

“Tenham sempre diante dos olhos o exemplo do Bom Pastor, que não veio para ser servido, mas para servir e para buscar e salvar o que estava perdido.”

Clero de Roma enriquecido com onze novos sacerdotes

Dos dezesseis novos presbíteros, seis deles foram formados no Colégio diocesano Redemptoris Mater, cinco estudaram no Seminário Romano Maior, quatro pertencem à Família dos Discípulos e um à Pequena Obra da Divina Providência (Don Orione) e fez seu percurso formativo na Paróquia romana de Todos os Santos. Onze dos novos presbíteros pertencem à Diocese de Roma.

No domingo do “Bom Pastor” foi também o 55º Dia Mundial de Oração pelas Vocações.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2018-04/papa-novos-sacerdotes-nao-se-cansem-de-ser-misericordiosos.html


Desligados os aparelhos, mas Alfie continua a respirar

Horas de angústia pelo destino de Alfie: ontem (23/04) foram desligados os aparelhos, mas o bebê continuou a respirar sozinho por mais de 9 horas, em seguida foi reidratado e ligado novamente ao aparelho de respiração artificial. O Papa lança novo apelo no tuíte.

Cidade do Vaticano

“Alfie está respirando sem ajuda de aparelhos” e “a diplomacia trabalha incessantemente”. A notícia foi dada em um post no Facebook Steadfast onlus, a organização que faz parte do grupo que está dando apoio à família do menino inglês. Depois de respirar por mais de 9 horas sem aparelhos, agora voltaram a conectá-lo ao aparelho de respiração artificial e a hidratá-lo.

Removida a ventilação artificial

Ontem a noite (23/04) foram desligados os aparelhos que mantêm a respiração artifical de Alfie depois da confirmação dada pelo juiz Anthony Hayden, do Tribunal de Apelações britânico. O fato ocorreu depois das últimas consultas com os advogados de partes e uma comunicação telefônica com os advogados representantes da família na Itália.

A decisão de reidratá-lo

Tudo isso enquanto a Itália, na intensa jornada de ontem (23/04), concedia a cidadania à criança de 23 meses que sofre de uma rara doença neurológica degenerativa, não conhecida e portanto não diagnosticada. No quarto de Alfie estão apenas o pai Tom e a mãe Kate que o mantêm no colo e o sacerdote italiano que nestes dias à assiste à família. “Alfie respira sem ajuda de aparelhos há mais de nove horas”, afirma o pai, por este motivo insistiu para que os médicos voltassem a reidratá-lo senão “seria uma morte por fome e sede”. E lança um pedido de ajuda: “precisamos de ajuda, precisamos de apoios vitais”.

O tuíte do Papa

Papa Francisco fez um novo apelo no tuíte de ontem (23/04) sobre o caso de Alfie: “Emocionado pelas orações e pela grande solidariedade em favor do pequeno Alfie Evans, renovo meu apelo para que seja ouvido o sofrimento de seus pais e seja satisfeito seu desejo de tentar novas possibilidades de tratamento”.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2018-04/alfie-apelo-papa-novas-possibilidades-tratamento.html


No seu onomástico Papa dá sorvete aos mais necessitados

A Esmolaria Apostólica distribuiu ontem, no dia em que o Igreja recorda São Jorge, 3.000 sorvetes às pessoas que são recebidas diariamente nos refeitórios, nos dormitórios e nas estruturas da Caritas da Capital italiana.

Cidade do Vaticano

“O Papa Francisco desejou comemorar o dia do seu nome onomástico junto com os mais necessitados e os sem-teto de Roma. Portanto, a Esmolaria Apostólica distribuiu ontem, no dia em que o Igreja recorda São Jorge, 3.000 sorvetes às pessoas que são recebidas diariamente nos refeitórios, nos dormitórios e nas estruturas da Capital italiana, adminstradas em grande parte pela Caritas”, comunica a Esmolaria Apostólica.

Nos seus cinco anos de pontificado, Jorge Bergoglio voltou-se para ajudar os mais necessitados da capital, com iniciativas como a instalação de banheiros e duchas no Vaticano, serviços médicos, além de convites para ver a Capela Sistina ou desfrutar um dia na praia.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2018-04/papa-sorvete-onomastico-festa.html


Papa pretende confirmar Estatutos da Comissão para a Tutela dos Menores

“Esses grupos”, recorda o comunicado, “são parte integrante da estrutura de trabalho da Comissão e realizam pesquisas e projetos nas áreas centrais para a missão de fazer da Igreja “uma casa segura” para crianças, adolescentes e adultos vulneráveis aos abusos.

Cidade do Vaticano

O Papa Francisco anunciou que tem a intenção de confirmar o caminho definitivo dos Estatutos da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores (PCTM), durante a audiência particular concedida neste sábado (21/04), aos membros da comissão.

A notícia foi divulgada pelo organismo criado por Francisco, em março de 2014, cujo presidente é o Arcebispo de Boston, Cardeal Sean Patrick O’Malley.

Por sua vez, a comissão referiu ao Papa as prioridades que se refletem nos seguintes Grupos de Trabalho: “Trabalhar com os sobreviventes”, “Instrução e formação” e “Diretrizes e padrões de proteção”.

“Esses grupos”, recorda o comunicado, “são parte integrante da estrutura de trabalho da Comissão e realizam pesquisas e projetos nas áreas centrais para a missão de fazer da Igreja “uma casa segura” para crianças, adolescentes e adultos vulneráveis aos abusos.

Encontro com o Painel Consultivo do Sobrevivente

Reunida em assembleia plenária que se concluiu este domingo (22/04), a Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores dedicou o primeiro dia à escuta dos membros do Painel Consultivo do Sobrevivente (Survivor Advisory Panel) da Comissão Nacional Católica para a Proteção provenientes da Inglaterra e Gales.

O encontro faz parte do compromisso contínuo da Comissão a fim de garantir que as ideias e a contribuição das pessoas que sofreram abusos marquem todos os aspectos de seu trabalho.

As pessoas convidadas declararam que a experiência de ser ouvidas com atenção pelos membros da comissão foi fortificante: puderam ver que o que falaram e o colocar em primeiro lugar as vítimas, teve um impacto sobre a comissão.

“Espero que a nossa visita ajude a comissão a desenvolver uma rede mais ampla de vítimas” dispostas a apoiar o trabalho do organismo”, declarou um dos membros do Painel Consultivo do Sobrevivente.

Por outro lado, a Comissão para a Tutela dos Menores é muito grata ao Painel Consultivo do Sobrevivente por ter partilhado conhecimentos e experiências com a assembleia, pois isso irá ajudar a desenvolver percursos eficazes para integrar a voz das vítimas na vida e no ministério da Igreja.

Durante a plenária, a comissão ouviu os relatos sobre “Os resultados da Comissão Real Australiana” (Australian Royal Commission), sobre a “Convenção das Nações Unidas para os Direitos da Infância” e sobre “O papel das comunidades de fé na superação do trauma de abuso”.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2018-04/papa-pretende-confirmar-estatutod-comissao-tutela-menores.html


Na surpreendente Exortação Apostólica “Gaudete et Exsultate” (Alegrai-vos e exultai), Francisco muda a norma tradicional católica sobre santidade. A Exortação teve sua redação concluída numa assembleia com o pequeno Emanuele de 10 anos de idade e com os pobres da periferia de Roma. Ela indica que o caminho para a santidade é a decidida opção pelos pobres e a busca pela justiça. Mais ainda: que este caminho não é exclusivo dos católicos e nem mesmo dos cristãos; está aberto a todos, inclusive aos ateus e ateias. Dom Oscar Romero é santo; igualmente santas são Edith Stein, Olga Benário Prestes e Marielle Franco.

Por Mauro Lopes

O Papa imaginou haver concluído no dia dedicado à memória de São José (19 de março) o mais franciscano documento de seu papado, a Exortação Apostólica sobre o caminho de santidade. Mas não. O texto foi finalizado por Francisco somente um mês depois, no 3º Domingo da Páscoa, em 15 de abril, no encontro com um menino de dez anos com o significativo nome de Emanuele, numa assembleia com pobres da periferia de Roma.

Naquele domingo, o Papa, que é antes de tudo o bispo de Roma, foi à paróquia de São Paulo da Cruz, na periferia mais pobre de sua diocese. O primeiro momento da agenda foi um encontro com crianças que frequentam a catequese. Quando chegou a vez de Emanuele, de apenas 10 anos, o menino aproximou-se do microfone e começou a chorar copiosamente.

Francisco chamou-o, “Vem, vem aqui comigo, Emanuele, e me diz ao ouvido, diz-me ao ouvido”. O menino foi, aos prantos, abraçado pelo pároco, padre Roberto Cassano. Francisco e o menino conversaram por poucos minutos, longe dos microfones, cabeça a cabeça. Quando Emanuele voltou ao seu lugar, o Papa, autorizado pela criança, relatou o diálogo.

Emanuele perdeu o pai recentemente e estava com o coração apertado com a dúvida se seu pai, que era ateu, estaria no céu no inferno – mesmo ateu, o pai de Emanuele fez batizar o menino e seus dois irmãos e uma irmã. Esta era a razão do choro angustiado.

O que disse o Papa?

Primeiro, sobre o pai de Emanuele:

“Que bonito quando um filho diz que o seu papai era bom! Um bonito testemunho sobre aquele homem, quando os seus filhos podem dizer que ele era um homem bom! Se esse homem foi capaz de ter filhos assim, é verdade que era um grande homem!”

Depois, sobre a angústia do menino:

“Quem diz quem vai para o céu é Deus! Mas como será o coração de Deus diante de um pai assim? (…) Será que Deus abandona os seus filhos quando eles são bons?”

Nesta hora, a comunidade reunida respondeu –e foi um dos momentos culminantes do papado de Francisco, pois ali, na periferia, entre os pobres de Roma, sua Exortação Apostólica teve seu ponto final, em redação comunitária do o bispo com o povo pobre. Em uníssono, todos responderam à indagação do Papa se Deus abandona seus filhos:

“Não!”

“Bom, Emanuele, esta é a resposta” –atalhou o Papa, dirigindo-se ao menino e, na verdade, a todos os católicos e à humanidade.

Pois assim completou-se o espírito que animou a Exortação do Papa. O céu, tempo/lugar de realização máxima do ser, da Partilha e da Amizade, e a santidade são caminhos abertos a todas as pessoas que têm sede de justiça e fazem a opção de estar ao lado, vive e conviver com os pobres, marginalizados e excluídos pelo sistema.

Uma revolução na história do cristianismo. Nunca antes um Papa concluiu um texto seu numa assembleia com os pobres e sob inspiração de um menino de 10 anos de idade.

Como escrevi, Emanuele, o nome do menino, talvez não tenha sido tão acidental assim. Pois esse era o nome do menino esperado em Israel quando do nascimento de Jesus, conforme a profecia de Isaías (Is 7,14), o sinal de que Deus estava com seu povo pobre de Israel –Emanuel quer dizer exatamente Deus conosco.  A passagem foi retomada no Evangelho de Mateus (Mt 1, 23) para anunciar que o Esperado havia chegado. Não teve o nome de Emanuel, mas de Jesus (o Senhor salva), mas era o pequeno Emanuel tão aguardado por seu povo.

Pois o pequeno Emanuel tomou para si a condução da assembleia de Francisco com aquele grupo de pobres em Roma e imprimiu uma virada história no catolicismo.

Sim, porque a resposta da comunidade da paróquia de São Paulo da Cruz não foi nada óbvia. Fosse um encontro com paroquianos ricos ou integristas, a resposta seria provavelmente oposta. Ou seja: que a santidade e o céu eram “propriedades” reservadas exclusivamente aos batizados e (aqueles que a hierarquia denomina de fiéis). Este era até agora o estabelecido, a regra, a lei, e ela foi reafirmada por João Paulo II em 1983 na Constituição Apostólica Divinus Perfectionis Magister e no Catecismo da Igreja Católica (nº 1023)

Com a Exortação de Francisco em coautoria com Emanuele e os pobres da paróquia de São Paulo da Cruz não é mais assim.

O coração da Exortação de Francisco diz: santidade é um caminho aberto a todas as pessoas e não exclusivamente aos fiéis católicos e um caminho que se faz à luz da grande convocação de Jesus no texto central dos Evangelhos, o Discurso das Bem-Aventuranças, complementado por um trecho do capítulo 25 do Evangelho de Mateus.

Sobre este trecho, escreveu frei Leonardo Boff no último sábado, 21 (Estive preso e me impediram de visitar-te):

“Há uma cena de grande dramaticidade no evangelho se São Mateus quando se trata do Juízo Final, quer dizer, quando se revela o destino último de cada ser humano. O Juiz Supremo não perguntará a que Igreja ou religião alguém pertenceu, se aceitou os seus dogmas, quantas vezes frequentou os ritos sagrados.

Esse Juiz se voltará aos bons e dirá: ‘Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do reino preparado para vós desde a criação do mundo; porque tive fome e de me destes de comer, tive sede e me destes de beber, fui peregrino e me acolhestes, estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, estava preso e viestes me ver… todas as vezes que fizestes a um destes meus irmãos e irmãs menores, foi a mim que o fizestes… e quando deixastes de fazer a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes’ (Evangelho de S.Mateus25, 35-45).

Neste momento supremo, são as práticas e não as prédicas para com os sofredores deste mundo que contarão. Se os tivermos atendido, ouviremos aquelas palavras benditas.”

Segundo o texto de Gaudete et Exsultate, a caminhada para a santidade tem uma única “grande regra de comportamento”, estabelecido por este trecho de Mateus, à luz das Bem-Aventuranças: “No capítulo 25 do Evangelho de Mateus (vv. 31-46), Jesus volta a deter-se numa destas bem-aventuranças: a que declara felizes os misericordiosos. Se andamos à procura da santidade que agrada a Deus, neste texto encontramos precisamente uma regra de comportamento com base na qual seremos julgados: ‘Tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber, era peregrino e recolhestes-Me, estava nu e destes-Me que vestir, adoeci e visitastes-Me, estive na prisão e fostes ter comigo’ (25, 35-36)” [95].

As bem-aventuranças são a grande convocação de Jesus para um jeito de levar a vida, rumo a um novo tempo e lugar chamado Reino de Deus. No seu discurso, Jesus convocou: “em marcha!”.  Em marcha (ashréi, em aramaico/hebraico, línguas de uso corrente na Israel de Jesus). Em marcha os pobres em espírito (ou os pobres, simplesmente, na versão de Lucas), os aflitos, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz, os que são perseguidos. Santos e santas são, dentre estes, os que se colocarem em marcha a caminho do tempo/lugar chamado por Jesus de Reino de Deus e se dispuserem a, de alguma maneira, por suas vidas, presentificarem tal Reino.

Não, escreve o Papa, rezar o terço e ir à missa aos domingos por si só não faz ninguém santo ou santa. Obedecer às prescrições formais da religião, mas alimentar o ódio, incensar os ricos e a riqueza, desejar o mal não é caminho de santidade:

“Não é saudável amar o silêncio e esquivar o encontro com o outro, desejar o repouso e rejeitar a atividade, buscar a oração e menosprezar o serviço. Tudo pode ser recebido e integrado como parte da própria vida neste mundo, entrando a fazer parte do caminho de santificação. Somos chamados a viver a contemplação mesmo no meio da ação, e santificamo-nos no exercício responsável e generoso da nossa missão.” (26)

“Poder-se-ia pensar que damos glória a Deus só com o culto e a oração, ou apenas observando algumas normas éticas (é verdade que o primado pertence à relação com Deus), mas esquecemos que o critério de avaliação da nossa vida é, antes de mais nada, o que fizemos pelos outros. A oração é preciosa, se alimenta uma doação diária de amor. O nosso culto agrada a Deus, quando levamos lá os propósitos de viver com generosidade e quando deixamos que o dom lá recebido se manifeste na dedicação aos irmãos.” (104)

É cara aos jesuítas como o Papa a expressão “contemplar na ação”. Em outras palavras, caminhar no cotidiano com os olhos e o coração bem apertos para testemunhar a Presença daquele que se fez Amor entre nós. É viver contagiado pelo Mistério. É este o espírito original da oração que pode desenhar um traço de união entre toda a gente de todo mundo, os que creem e os que não creem, mas estão comprometidos com este desejo.

Um homem que está para ser declarado formalmente santo pela Igreja, dom Oscar Romero, arcebispo de El Salvador assassinado pelos militares sob a indiferença do Vaticano em março de 1980, deixou claro em uma homilia em dezembro de 1977 o caminho de santidade e como ele pode ser corrompido no interior mesmo da Igreja Católica:

“Uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas não agrada ao Deus da Vida. Uma religião de muita reza, mas de hipocrisias no coração não é cristã. Uma Igreja que instala só para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, porém que não ouve os clamores das injustiças não é a verdadeira igreja de nosso Divino Redentor.”

O caso de Oscar Romero é exemplar. Fez-se santo no exato espírito da Exortação de Francisco ainda em vida. Portanto, era santo –e assim foi considerado por milhares de católicos de todo o mundo por décadas- muito antes de seu reconhecimento pela hierarquia católica. Era santo enquanto era condenado por João Paulo II, que lhe ordenou abandonar os pobres de seu país e aliar-se à genocida elite política salvadorenha e à reacionária cúpula da Igreja local. Era santo quando, depois de morto, sua memória sofreu intensa campanha de difamação orquestrada pela Cúria romana, que bloqueou o processo de canonização por mais de 30 anos.

Santa foi também Edith Stein, sequestrada pelos nazistas no mosteiro carmelita de Echt, na Holanda, em 2 de agosto de 1942 para ser morta na câmara de gás em Auschwitz uma semana depois. Ela oficialmente canonizada em 1999. Mas sua santidade continha uma contradição que só agora, com a Exortação de Francisco, está resolvida: Edith Stein não foi sequestrada e morta pelos nazistas por ser católica ou por ser monja, mas por ser judia. Tornou-se santa por pertencer a um povo e fazer a escolha de levantar-se contra a injustiça e o ódio e não por seu caminho particular de fé.

A história de Edith Stein guarda enorme semelhança com a de outra judia, Olga Benário Prestes, ambas alemãs. Enquanto Edith foi sequestrada na Holanda, a comunista Olga, casada com Luís Carlos Prestes foi sequestrada no Brasil e enviada para uma prisão de mulheres da Gestapo. Grávida, deu à luz Anita Leocádia Prestes (hoje com 81 anos). Depois não de sete dias, como Edith, mas de sete anos de intenso sofrimento na prisão, onde sofreu diversas torturas psicológicas, agressões e humilhações morreu na câmara de gás quatro meses antes da monja carmelita, em 23 de abril de 1942, no campo de extermínio de Bernburg. É santa, por sua vida pobre ao lado dos pobres, igualmente pelo Reino, como Stein.

Santa igualmente fez-se Marielle Franco, mártir do tempo da Justiça-Paz como Edith Stein e Olga Benário Prestes. Executada, como as duas, com uma diferença de quase 80 anos. Não num campo de concentração nazista, mas numa rua do Rio, cidade cercada por um sem-número de campos de concentração conhecidos, no Brasil, como favelas.

Francisco, o pequeno Emanuele e a comunidade da periferia mais pobre de Roma mudaram a história da Igreja e proclamam em alto e bom som: Oscar Romero, Edith Stein, Olga Benário Prestes, Marielle Franco e milhares de homens e mulheres ao redor do planeta e ao longo da história, fizeram-se santas e santos. Cada um do seu jeito escutou a convocação de Jesus e pôs-se em marcha.

Fonte: http://outraspalavras.net/maurolopes/2018/04/24/o-papa-um-menino-e-os-pobres-redefinem-santidade/#more-3169

 

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